segunda-feira, novembro 03, 2008

In a Silent Way



In a Silent way

O baixo dita o ritmo. Parece um lento coração que não se apressa em gastar todas as batidas que lhe foram prometidas ou garantidas. Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... É noite. Chove. E chove lento. As gotas todas desenham um jogral móvel de poucas e contrastantes cores. O azul marinho, quase negro, que desce do céu, e o reflexo amarelado da iluminação que desce dos postes. É um jogral sépia. Lento e sépia. E pulsa. Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... Teclados ao fundo lembram buzinas e sirenes bêbadas. Bêbadas e muito mais convincentes do que quando sóbrias. Mas apenas lembram, parecem. Estamos num silencioso caminhar. Lugar quieto. Lugar surdo. De nada adiantaria gritar, nem buzinar e nem sirenar. Serenar, talvez. E ao lado das buzinas e sirenes vem também um tilintar metálico. Seria o platô dos veículos das buzinas, ou o prato metálico chiante da bateria? A bateria, não aquela que morre, mas aquela que ministra o ritmo. Ministra, pois o ditador já temos, já foi dito: Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... Dum duuuuum... No meio do ritmo ditado e do lento jogral móvel que a chuva pratica com a luz dos postes; e no meio de buzines e sirenas e do chiado ministrante da bateria; no meio de tudo isso meus pensamentos seguem as pegadas das idéias de um trompete. Também ele bêbado. Também eu trompeteando pelas pedras do caminho. Mas a chuva está ali para lavar todo o pó de cada queda.

Vira o disco.

Mentira. Mentira das mais normais quando dizemos que, sim, nos lembramos de cada queda. Mentira. Mal nos lembramos, agora, qual era o ritmo cadente. O trompete continua. Nos esquecemos até em que número estávamos trabalhando qualquer pronome até este momento. Mas quem se importa? Ouça. Creio que seja aquela tímida, mas segura, caixa da bateria. Se não me engano, os teclados jã não estão assm tão bêbados. Parece até que o baixo-ditador foi deposto. E agora só gagueja: du-du duuumm... du-du duuumm... du-du duuumm... du-du duuumm... E só larga da gagueira para acompanhar a dança dos teclados. Mas ali vem novamente o trompete que incentiva o jogral da chuva. Imagens e mais imagens, feito televisão, feito holograma e ninguém mais pra ver. E a bateria, que ministra, fala um pouco mais alto, faz pular um tanto mais forte o coração. Mas depois vai, deixa. Serenes, seguimos o caminho. É noite. Noite silenciosa. E chove. Chove lento. Se houvesse mais alguém por ali, alguém que não tivesse medo de silêncio e nem de se molhar, acreditaria no quão vagarosa chovia aquela chuva. Lenta, mais ou menos, como a vagarosidade do escorrer de algumas lágrimas. Aproximadamente dois terços de hora para escaparem das pálpebras e escorrerem através do rosto até o salto do queixo, indecisas em cair, acompanhando a incansável repetição do vai e vem da agulha no miolo do disco.

Ainda chove.

5 Comments:

Blogger Alessandro said...

Ca-ra-lho!

Sem mais.

Só... abraaaaaaaço!

E só PS: Cara, incrivelmente não tenho nenhum daqueles filmes... nenhum! Incrível, né?

segunda-feira, novembro 03, 2008 9:31:00 PM  
Anonymous Ale said...

Escritor, homem, mente sempre atuante... a música inspira o escritor que inspira as palavras que voltam a ser músicas!

Maravilhoso.

Biseaus

quarta-feira, novembro 05, 2008 12:14:00 PM  
Blogger T A T U said...

Putaquepariu Mafra!
Foda... Respirando... Respirando e ouvindo o meu coração que gasta as batidas prometidas esperando a queda do baixo-ditador nessa orquestra de sentimentos densos e confusos.
Obrigada pela leitura ótima!
bjs!

segunda-feira, novembro 10, 2008 10:58:00 AM  
Blogger MAO said...

Fantástico...

Tá virando um monstro muleke...



Quando sai o livro?

To dedendo uma visita no seu cafofo né?

Abraço...

quarta-feira, novembro 12, 2008 12:41:00 PM  
Blogger MAO said...

É. faz tempo q vc não entra.

E faz tempo q vc não me coloca na seleta listinha aí do lado.

Vou no sabado. Ia ser bem legal se vc fosse. Queria conversar contigo.

Abraço

segunda-feira, novembro 24, 2008 2:15:00 PM  

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