Eu e o macaco.

Nenhuma percepção de mundo é perfeita, completa. A minha, garanto, é falha, é meia. Culpa minha, claro. Não tenho o olho direito por um equívoco que cometi. Uma macaco o arrancou, desses macacos de programas de televisão e circo.
Estive num desses eventos e, no fim do espetáculo, quis conhecer os bastidores. Ele estava solto e quieto, agachado em um pequeno banco, com as mãos dadas entre as pernas. Observava o movimento, distraído. Cheguei perto me abaixei e olhei nos olhos dele, que me responderam. Disse em voz alta, para que ele entendesse, que queria descobrir no que estava pensando. Estavam marejados e eram profundos e misteriosos, surpreendentes, fascinantes. Pareciam humanos e acho que quase conseguiria penetrar em seus pensamentos. Não imaginava que tal atitude, fitar assim procurando desbravar e conhecer, não era bem-vinda entre macacos. Foi tarde quando percebi a imensa ira que emergia do mar de seus olhos, não tive tempo de esquivar. Um guincho e dois dedos em meu olho direito.
O que fiz, para ele, o macaco, era agressão. E ele me respondeu. Socorreram-me ao hospital, pagaram-me indenização e tudo o mais que situações desse tipo exigem.
Demorou um pouco, mas consegui me acostumar com essa situação quando finalmente percebi que essa falha e meia percepção, a da falta do olho e do olhar completo, já era corrente em meu viver. Isso foi a tempo de livrar o macaco do sacrifício. Até pensei, durante dois ou três minutos, em adotá-lo. Era o macaco que abriu meus olhos para o que não viam! Mas logo percebi que poderia estar errado. Minha percepção das coisas continuava a mesma, falha, e, afinal, nunca sobe de ninguém que tivesse entendido as motivações e intenções de nenhum macaco. De baleias e golfinhos, talvez, mas essas são fáceis. Macacos são mais complexos. Eles têm olhar e lacrimejam. Resolvi não arriscar. Depois de participar de alguns programas de televisão foi lacrado em um zoológico e não soube mais dele.
O lugar onde deveria estar meu olho direito é feio, pra quem olha. Tem uma prótese, não outro olho artificial, apenas um material que isola e protege o oco da minha cabeça. Às vezes, no espelho, lembro que me assombrei com a profundidade do olhar do macaco... O meu, agora, é muito mais profundo. Ao menos o olhar direito.
Mantive meu emprego na mesma empresa, mas não com a mesma função. Antes vendia sapatos, ou calçados, que não eram somente sapatos. Agora trabalho no estoque. Não disseram a razão, mas eu vejo, no espelho. Essa mudança não me abalou, embora não possa negar que gostava muito mais e até sentia prazer em trabalhar na loja. Era bom. Atendia a freguesia e sempre tentava adivinhar qual era o gosto do cliente. Um sapato, um tênis, uma sandália. Algo confortável, algo barato. A cor, o modelo. Alguns tinham vergonha dos pés e do chulé. Apareciam, claro, pessoas com pés realmente feios e outras com pés muito bonitos também. Mas não era para julgar esse tipo de coisa que eu estava lá. Estava lá para ajudá-las. Imagino o que seria se um veterinário tivesse medo ou não gostasse de certa raça de certo animal; ou se um médico tivesse fobia a sangue; ou se um contador, sendo pessoa de números pelo ofício, tivesse medo deles; ou se uma pessoa de letras, e sendo-a pela vida, tivesse pavor de palavras feias ou erros de ortografia. Imagino o que seria... É como se um piloto de avião tivesse medo das alturas e como se ele nunca tivesse pesquisado sobre grandiosos acidentes aéreos que se resumem ao mínimo, ao chão. Eu era um vendedor de sapatos e estava preparado para as tragédias do meu ofício. Quanto ao chulé, para animar o cliente, eu sempre lembrava que nós, vendedores de sapatos, também o temos, e geralmente mais forte e difícil de suportar, pois nossos narizes, de tanto trabalhar, já estavam calejados, tinham perdido a sensibilidade.
Eu gostava, era bom trabalhar na loja. Agora estou no estoque, e sem um olho. E são tantos pares... tantos pares... Isso dói às vezes. Quando o movimento está fraco e eu fico com poucas demandas no estoque, olho para aquelas caixas, uma por uma com a certeza de que há sempre um par em cada uma delas. Sempre. Nunca um trio e nem um sólo. Sempre um par. Daí eu penso em para quem este mundo é feito. Não para mim ou pessoas como eu, tenho certeza. Se a pessoa não tem uma perna, pagará o dobro quando comprar um sapato ali na loja. Eu, pelo menos, posso aproveitar as duas lentes de contato. São muito mais econômicas, dessa forma, e eu não quero usar óculos, seria ridículo. Mesmo que fossem escuros e escondessem minha cavidade direita. Na minha visão seria, a lente direita, uma redundância.
Me perdoe, queria dizer uma coisa e uma coisa sempre puxa outra e que tenham paciência as pessoas mais objetivas, que é isso que sempre dizem e todos sabem. Comecei dizendo que nenhuma percepção é perfeita, completa. Foi isso o que comentei com um cliente esta manhã, na loja de sapatos. Sendo estoquista, não tenho certeza se é essa, a palavra estoquista, a que designa minha profissão, e nem se é essa, a profissão, minha vocação, mas é isso que sou, por enquanto, para todos os efeitos. Voltando: sendo estoquista, por profissão, sou o responsável de trazer os pedidos das caixas de pares de sapatos do estoque à loja. Alguns deles, os clientes, que é profissão de todos sermos clientes de alguma coisa. Alguns deles, como dizia, saem correndo, horrorizados, quando me vêem; outros apenas desistem da compra e saem devagar; alguns fingem que não viram que viram a falta do meu olho direito no lugar direito onde ele deveria estar; existem os que nem percebem essa falta. E teve esse que reclamou que eu trouxe a caixa com o par de sapatos de número errado. Talvez não coubesse no pé dele. Fez um escarcéu, me chamou de caolho e essas coisas. Não respondi. Não pelo emprego, não tenho medo de perdê-lo. Trabalho muito bem no estoque. Não respondi apenas porque pensei que a vida daquele homem devia estar um inferno, e eu não queria piorar isso. No fim das contas, quando meu gerente veio socorrer o cliente, eu trouxera o número certo. Ele é que tinha a vista e a vida ruim por conta da idade ou da vida mesmo e enxergou o que não era. Foi nessa hora que fiz esse comentário sobre essa coisa da percepção. Ele desistiu da compra, disse que aquilo era uma absurda falta de respeito e foi embora. Pensei por um instante em ir atrás dele e me desculpar, mas instante depois achei melhor que não. Nossa percepção nunca é perfeita, e a minha, pra piorar, é falha e meia. Achei que não.
Sempre soube de muitas pessoas que tentaram entender as motivações e intenções dos seres humanos. Até de baleias e golfinhos. Mas os seres humanos são mais complexos. Têm alguma coisa que, até se tivéssemos um olho a mais, não conseguiríamos enxergar. Não sei e nem ouvi falar de ninguém que tivesse conseguido. E, além disso, não podia me preocupar com essas coisas, tinha mais cinco caixas de pares de sapato para descer do estoque.
5 Comments:
Mafra
Caralho... o conformismo das suas personagens é foda... como se eles tivessem perdido uma coisa grande lá atrás... e agora desistiram sabe? não se importam mais...
É até perigoso ler seus textos num dia ruim...
Estava sentindo falta deles...
Abraço...
Hey,
Sou amiga do sujeito acima...rs! Realmente os seus escritos sao dignos de admiracao!
Tratam, exatamente, das personagens que as pessoas construiram e se atem a viver em um mundo tao desumano.
O grito de consciencia nao submergiu em sua mentes e creio que nao ocorrera!
Parabens
Beijos
Nossa vista é falha e meia, camarada. Falha e meia. Mas do texto, eu gostei.
Abraaaaaaaaço!!
Puxa!
A realidade é foda! E não existe visão de mundo perfeita... A personagem é de uma visão imperfeita e ampla. Muito bom o texto!
Como pode dizer que não encontra mais as palavras, se elas fluem no seu pensamento e em sua escrita, texto foda como tudo que você faz!
biseaus amor,
Ale
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