quinta-feira, junho 08, 2006

Miséria.

Mais uma vez no metrô. Outro dia daqueles! Meu corpo parece querer morrer. Um ódio desnecessário e injustificável toma conta de minha mente, que amaldiçoa todos esses pobres coitados que dividem o vagão comigo. De um instante para o outro comecei a prestar mais atenção neles. Não passam de miséria. Todos com os seus temores escondidos dentro das bolsas ou dos crachás que carregam nos pescoços, assim como cabras, bois e vacas e seus sinos. Estão todos atrasados demais na vida. E a porta do vagão se abre, outros miseráveis entram. Ficam ali, parados, obedientes a todas as recomendações. Olham para baixo, evitando que alguém invada a privacidade de seus olhares. Quantas culpas carregam por trás dos olhos. Não sou de culpas, carrego comigo apenas as que eu quero. Mas eles parecem insitir em carregar o máximo de peso possível, dividindo-o entre as bolsas, os crachás e os ombros. Camuflando suas frustrações com ridículos subterfúgios. Cada um finge acreditar na ilusão que os outros sustentam, eu não. Embora fique mais fácil suportar a própria desgraça, prefiro tomar outro caminho. Posso olhá-los, a cada um, nos olhos e arrancar-lhes cada vergonha que têm por dentro. Posso intimar-lhes algumas palavras indecorosas, me responderão com silêncio. Responderão um silêncio amedrontado, pois não querem desafroxar o nó seguro de suas velas, que mantêm sempre ali, içadas, entregando-se a qualquer vento que os carregue para junto dos outros. Têm um medo incrícel de navegarem sozinhos. Tremem, e eu não sinto dó.

Então, talvez eu seja o mais seguro de todos. Aquele que tem o direito de olhar nos olhos e adivinhar seus desvios. Poderia definir para cada criatura daquelas um tipo de medo diferente. Classificá-los e estudá-los, com ou sem propósitos, apenas para praticar minhas fórmulas e talvez montar alguma tese. Poderia escrever e vender-lhes livros de auto-ajuda inúteis, apenas para me divertir vendo-os afundar cada vez mais. Observando como facilmente conseguem encontrar seus problemas e, sem perceber, escondê-los novamente noutro lugar um pouquinho mais difícil de se encontrar.

Talvez eu pudesse fazer tudo isso, mas não. Não. Não é o caso.
Não é o caminho que sigo.

O caso é que tomo a liberdade apenas de falar o que vejo nessa pobre gente que divide este vagão comigo. Falo com ódio, é certo. Mas não passa de um ódio desnecessário e injustificável. Não falo deles nem mais nem menos do que diria de mim, de qualquer um. E só falo assim por ter, finalmente, descoberto em mim a mais triste das misérias. Por ter desvendado aqui no peito boa parte desses subterfúgios ridículos, desse medo, desses olhares. Não há quem escape disso. Às vezes (para uns), ou frequentemente (para outros), talvez alguma dose de noites e bebidas (ou outras coisas) consiga afastar um pouco essas condições, mas nada permanente.

Sinto-me apenas no direito de falar tudo isso com ódio. Sinto-me livre para isso, pois encontrei a miséria em mim e meu corpo dói. E me sinto à vontade também, pois se há alguma diferença entre nós, é que a pobre miséria garimpada por aqui não tem como destino bolsas ou crachás, subterfúgios talvez. A miséria daqui está aqui mesmo, nos olhos e na cara. E nos cabelos de vez em quando.

1 Comments:

Anonymous Minha said...

Texto de reflexão, legal!
Lendo surgiram essas palavrinhas, lê ai, espero não ter saído do assunto:

Quanto mais peso o burro carregar mais devagar ele vai andar!
A estupidez humana estampada em caras maquiadas, barbeadas em todos os cantos: metros, ônibus, banheiros, quartos, pensamentos... e cada um sabe o que cabe dentro de si, sabe a carga de culpa, de ódio, de irrelevância e de miséria, uns expõem, outros vomitam, outros utilizam os subterfúgios!

quinta-feira, junho 08, 2006 12:36:00 PM  

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