domingo, agosto 09, 2009

Paraíso


1 – É um lugar estranho...
2 – É? Por quê?
1 - Não sei se sei dizer. As pessoas que vivem por lá têm estranhos desejos e um incoerente orgulho de serem tudo aquilo que, parece-me, na verdade detestam.
2 –Como se chamam? Como são?
1 – São Pedros, Josés, Marias, Joões. São bobos, corintianos ou flamenguistas. São pobres soberbos, e os ricos conseguem sempre comprar alguma humildade. Uma imensa maioria é desnutrida de carne, de conhecimento, de cultura, de plena liberdade, de saúde, e são sempre furtados às oportunidades de melhoria de vida. Porém, a imensa minoria que resta serve para equilibrar a balança.
2 – E vivem todos nesse mesmo lugar? Não é incoerente? Vivem em paz?
1 – Sim, todos no mesmo lugar, chamam-se de brasileiros. É incoerente, sim, que vivam todos, assim tão diferentes, nesse mesmo lugar; ou ao menos que acreditem que vivam todos juntos. E não é exatamente em paz que vivem, é outra coisa.
2 – Que coisa?
1 – já sentiu dor alguma vez?
2 - Sim, já.
1 – É mais ou menos isso, uma dor. É como quando se sente uma dor e lhe aplicam uma anestesia. Não fosse isso, a dor continuaria, a causa permanece. É quase isso o que têm parecido com paz, um anestésico.
2 – E por que não atacam diretamente a causa em si?
1 – Eles não sabem.
2 – Não sabem resolver o problema?
1 – Nem conhecem os problemas.
2 – Não conhecem?
1 - Pensam que sim, mas não. Quero dizer, alguns sabem sim quais são os problemas e têm até diversas idéias de como resolvê-los.
2 – Não é de todo mal, esses alguns podem compartilhar suas idéias com os demais.
1 – Não é assim tão fácil.
2 – Mas se soa idéias para acabar com a causa da dor...
1 – É que para lutar contra a dor é preciso senti-la, e são poucos os dispostos a abrir mão dos anestésicos.
2 – Então não é tão fácil mesmo.
1 – Não, não é. Mas creio que não seja problema tão grande. Eles se amam.
2 – Mesmo com todas as diferenças?
1 – Mesmo assim. Aqueles poucos, é claro, estão satisfeitos em manter a mesma e melhor situação possível para o próprio grupo. Os outros, por incrível que pareça, chegam até a sentir orgulho por terem sofrido tanto a vida inteira e por terem criado seus filhos de forma que possam perpertuar seus valores; valores construídos como subterfúgios ao sofrimento. Eu disse que era um lugar estranho.
2 – Muito estranho.
1 – Mas está tudo bem. Fica tudo bem para eles se no meio disso tudo aparecer na televisão algum outro brasileiro com o qual se orgulhar. Não importa se esse outro brasileiro é campeão mundial de retórica ou se ele apenas sabe chutar um coco. Se um deles morre e se torna notícia internacional, então, é uma comoção geral.
2 – Esse é o caso dos anestésicos...
1 – Parte pequeníssima do caso.
2 – Muito estranho mesmo.
1 – Eu disse.
2 – E as praias de lá?
1 – Ah, rapaz, são lindas! Cada mulherão! Aquele lugar é um paraíso!!!

2 Comments:

Blogger Talita Barboza said...

Há! óTimo!

Saudades de todos!

beijos!

quarta-feira, setembro 16, 2009 1:46:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Não deveria concluir assim mas concluo que a maioria vive envolta numa ignorância que a domina. Essa maioria até gosta de viver assim. Em momentos de tragédias ainda dizem:- "Graças a Deus!" Eu não entendo mesmo e concordo com você que tudo é estranho e nem ouço vozes! A Deyse lhe deseja uma Boa tarde.

sábado, janeiro 16, 2010 11:16:00 AM  

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