quinta-feira, outubro 26, 2006

O mundo é como poeira no fundo de uma gaveta.


Todas as coisas da minha gaveta vão continuar mortas quando eu me for. Todas inertes, esquecidas dos meus pensamentos. Os trocados, os papéis, minhas cartas, minhas canetas, tudo ali continuará.

O mundo passa devagar, mas passa intenso. Confunde nossa cabeça, tenta urgir nossas ações sem remorso.
O mundo todo passa por aí e o mundo todo cabe em meu campo de visão. Um quarto escuro fechado, uma noite cansativa e o silêncio do fim da madrugada, o universo que posso enxergar. Lá fora tudo continua e permanecerá assim como todas as coisas do fundo da minha gaveta. Eles correm e nós entramos e saímos e depois nos vamos e eles continuam correndo e ninguém sabe ao certo se chegam em algum lugar. Um quarto escuro fechado, um cigarro e os pensamentos soltos no ar. Ignorância minha pensar que existe algo lá fora. O universo é o meu campo de visão e fora dele tanto faz. Fora dele é o futuro ou algo do tipo e quem é que sabe?

A luz do dia resiste em me acertar e eu não quero acreditar em nada mais que isso. Enfim o dia me rejeitou e eu não posso fazer nada pra mudar essa situação, nem quero. No ar, junto com a fumaça do cigarro, algo mais pesado que pensamentos. Sinto a noite me buscar novamente e dessa vez não posso me esquivar. Esta noite não tem fim, não existe amanhecer. No quarto escuro fechado minha alma esvai-se em gotas, formando uma poça suja com os pensamentos e toda a fumaça do ar. E o resto permanece.

Eu sabia que não valia a pena correr tanto e chorar tanto pra acompanhar o ritmo histérico e sem sentido do universo. Não perdi tanto tempo com isso e agora tenho o que todos têm: um fim. Em minha gaveta, continuarão as coisas mortas e talvez alguém, algum dia, tenha tempo de enterrá-las. O universo permanecerá correndo pra chegar num lugar e encontrar alguma coisa, sabe-se lá onde e o quê, e no final enterrará o próprio corpo numa cova grande o suficiente para caber tudo o que existe. Nem a fumaça dos cigarros e os pensamentos que ficaram trancados num quarto escuro escaparão.

Tudo um dia terá um fim, mas o relógio desperta. O dia já entra pela janela e estou atrasado. Iria acender um cigarro antes do banho mas não consigo. Sentado na cama, meus pés descalços no chão, a caixa de fósforos na minha mão, o cheiro de uma noite cansativa no ar e meu olhar vago em nada, procurando alguma coisa. Não me lembro o quê. Talvez um sonho. Um sonho que se esconde fácil no fundo de umas das gavetas da minha mente.

Esqueço. Disseram que eu tenho mais o que fazer.

2 Comments:

Anonymous Minha said...

Intenso!
biseaus

quinta-feira, outubro 26, 2006 4:24:00 PM  
Blogger Alessandro said...

Ei, você tem mais o que fazer!

Ficou foda, meu amigo. Não é o teu melhor, porque o teu melhor está posts abaixo ou é proveniente de outro blog. Mas gostei bastante.

Ei, você chegou a dar uma fuçada nos posts sobre Elliott Smith que fiz ontem?

Ah, sim... nosso sarau já tem nome. Será o Sarau Verde-Hortelã, o que já é uma referência ao espaço que o Rubão e a Beth vão abrir em Ubatuba. (Que bom, já há pretexto pra visitar o litoral Norte... eh eh eh!)

Abração, camarada!

sexta-feira, outubro 27, 2006 4:32:00 PM  

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