terça-feira, setembro 12, 2006

Relato VI



Esse é um texto escrito há uns dois meses pro Relatos, que eu achei que merecia vir pro lado de cá.


Dois amigos, numa mesa de bar, prosseguindo uma conversa:

- ...daí eu peguei e falei pro cara, "pô, tá faltando o troco". Sabe o que ele me disse? Sabe o que ele me disse? O cara falou que tava certo, você acredita? Vou te falar... se não fosse uma merreca eu ia... (e ontinua falando)

O outro, com cara de preocupado:

- Meu, eu peguei a mulher do cara!
- O quê?
- Eu peguei a mulher do cara!
- Que cara? Tá louco?
- Você sabe que cara! Eu peguei a mulher dele, ontem.
- Ontem...? Não acredito! Quer dizer que... você... você... você pegou a mulher do cara? Que maravilha! Eu devia ter ficado aqui pra ver! E eu que pensava que aquela delícia era uma santa...Mas e aí, como é que foi?
- O cara apareceu por lá...
- O cara... sério? Ele te viu com ela?
- Não deu tempo, saí pelos fundos.
- Ainda bem!
- Só que tinha uns amigos deles lá, no bar, antes dele chegar.
- Porra! E ela não falou nada?
- Ela não passa de uma vadia!
- Cacete, cê tá ferrado!
- Pode ser...
- Então vamos sair daqui, qualquer hora ele chega.
- Que nada!
- Chega sim! O cara vem aqui todo dia, você sabe!
- Sei! Por isso mesmo vou ficar. Ir embora que nada!
- Tá louco?
- Não, meu amigo! Vou embora e depois sumo do mapa? Nem de brincadeira. Vou ficar aqui.
- Você tá louco!
- Que nada. Não é nada que umas boas porradas não resolvam.
- Exatamente! O cara vai te estourar a cara!
- Pode ser, mas pelo menos uma ou duas eu acerto nele.
- Você não passa de um doente! Vou ficar aqui pra ver isso. E você sabe que o cara resolve tudo sozinho, se eu tentar entrar pra ajudar o pessoal dele me esquarteja!
- Eu sei, seu cagão! Não esquenta a cabeça, o negócio é entre nós dois.
- Não é assim... se eu pudesse ajudar... Aliás, tem tempo ainda! Vamos sair daqui!
- Não saio daqui nem que chova mulher lá fora! Sabe que valeu a pena?
- Valeu a pena? Eu que vou ter pena do que sobrar de você!
- Não, tô falando sério! Valeu a pena mesmo! Aquela vadia sabe como faz a coisa... Quer saber? Vou destruir o cara e ficar com ela pra mim!
- Cacete, além de louco me vem agora com esse papo machista do cacete? Logo você, que nunca foi disso? Tá pensando que é assim que as coisas funcionam?
- Não, nada disso! Eu sei que não é assim. Não tô sendo machista...
- Ah, não? Tá sendo o quê então com esse papo escroto de home das cavernas?
- Tô jogando com a a situação. Eu sei que não é assim que acontece, geralmente. Mas eu sei que com ela é assim. Tô te falando que ela não passa de uma vadia!
- E você quer essa vadia pra você... Pra quê?
- Pra nada! É só o lance da conquista mesmo. Depois eu penso o que fazer com ela... Mas primeiro vou ganhar essa mulher no braço!
- Vai quebrar a cara, isso sim!
- Pode ser, vamos ver... olha lá ele!
- Onde?
- Ali, na porta. Tá com a vadia do lado...
- Cacete, é mesmo! O cara te viu! Tá vindo pra cá! Ele vai te pegar, meu! Olha os olhos dele!
- Cala a boca você! E VOCÊ AÍ???

O cara:

- Eu O QUÊ, CACETE?
- TÁ OLHANDO O QUÊ??? TÔ CAGADO???

Disse isso e pulou pra cima do cara. O cara se esquivou. Depois disso os dois se atracaram e a brincadeira rolou solta pelo bar. Conseguiu acertar muito mais do que planejara. Foi atingido muito menos do que pensara. E foi assim. Depois de longos quinze minutos de brincadeira sem ninguém querer entrar pra atrapalhar, os dois se afastaram, sangrentos, inchados, cansados e empatados. Cada um sentou numa mesa. O dono do bar trouxe duas cervejas por conta da casa. Os curiosos se dispersaram e a noite foi retomando as características rotineiras de uma noite qualquer. Eles bebiam com calma, quietos. Seus olhares não se cruzavam. Qualquer pessoa, olhando as expressões de cada um deles, poderia dizer que pensavam em qualquer coisa fútil da vida como o aluguel, o mísero salário ou o horário do último ônibus para voltar pra casa. Qualquer coisam, exceto a porradaria que tinham acabado de travar. Estavam tranquilos. Dentro de meia hora era como se nada tivesse acontecido, a não ser pelos cacos de vidro de copos e garrafas espalhados pelos chão, que o dono do bar teimava em recolher.

A mulher? Dizem que ela saiu pela porta da frente do bar, sem dar satisfações, antes mesmo da briga terminar. Ninguém nunca mais a viu por ali. Uns dizem que ela se suicidou. Outros dizem que ela saiu dali direto pra um convento ou um sanatório, alguma coisa assim, pra nunca mais voltar. Há ainda outros, os mais quietos dos bares, que comentam que ela ainda anda por aí, noite após noite, de bar em bar, provocando discórdia entre homens insensatos. Indo sempre embora, sem nunca ficar pra ver o desfecho de nenhum dos entraves que provoca. E em todos eles os homens terminam sempre empatados!

4 Comments:

Anonymous Narco said...

Não sei pq... me lembrou o Gruta essa parada... vadias com seus namorados bombados... mulekes q não tem nenhum noção do perigo... hahahaha...



tirando a cortesia do dono do bar com os dois...

Saudades...

Beijos muleke...

quinta-feira, setembro 14, 2006 2:35:00 PM  
Blogger Alessandro said...

Lembra Gruta mesmo. E eu estava lá até agora a pouco, quando me preocupei com o horário do último ônibus. E, diabos, consegui desenvolver um bocado de um conto que eu prometi a mim mesmo que terminaria. Não terminei, mas fui bem mais longe do que eu imaginava.

Abraço!

quarta-feira, setembro 20, 2006 1:44:00 AM  
Blogger Alessandro said...

Sim, quinta-feira estarei lá.

Ei, Mafra, leva Os Sonhadores pra mim, na quinta? Qualquer coisa, eu faço uma cópia pra você.

Estou com gravador de DVDs agora. E estou com saudade do filme... eh eh eh!

Abração!

quarta-feira, setembro 20, 2006 5:08:00 PM  
Blogger Alessandro said...

Ah, sim... Contrafluxo eu li no Gruta, mas então Contrafluxo era Alquimia. E ainda não tinha feito uma edição. Quando Alquimia virou Contrafluxo, recebeu alguns acréscimos.

Decidi mudar o título, porque... imagina quantas poesias circulam por aí com o nome de Alquimia... umas 600 mil? No entanto, poesias tendo Contrafluxo como nome... ah, devem ser umas 10 mil no máximo... eh eh eh!

Abração e até mais tarde, no Gruta, se você realmente passar por lá. (Tomara que sim!)

quinta-feira, setembro 21, 2006 12:51:00 AM  

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