quarta-feira, julho 05, 2006

Pastores, ovelhas, ratos...


Sigo andando pelas ruas, e por mais redundante que possa ser, insisto em afirmar que tudo por aqui é podre. Sigo meu caminho por isso. O ar denso e gelado da noite invade meu corpo disputando os espaços com a fumaça do cigarro. Meu pulmão não falha, minhas pernas não reclamam, meu corpo não sente frio. Continuo porque tudo ao redor é podre e não haveria motivos para parar, embora também não haja motivos pra continuar. Minha vida faz parte da sujeira e é só o que basta. Nos igualamos, aqui embaixo, aos ratos. Cavamos fundo os caminhos ou então utilizamos os bueiros e o esgoto mesmo. Passamos correndo pelas ruas para que ninguém nos veja. Estamos sempre atentos para qualquer imprevisto. Sempre em estado de alerta. Tudo isso para conseguir o básico que nos alimenta e prosseguirmos. Ou então, melhor ainda, tudo isso para conseguir qualquer coisa que prepare nossas mentes para suportarmos mais uma noite e um dia. Talvez mais um dia. Ou alguém pensa que os ratos correm apenas por alimentos? Não... corremos para mais que isso. E, seguindo por qualquer rua que a noite me trouxer, posso encostar minhas lástimas num balcão de bar, tomar algumas doses e voltar pra correria, passando pelos becos, pelos cantos, pelas sombras. Carregando apenas o peso do céu, o desespero de viver e a contraditória vontade de continuar sobrevivendo. Um dia mais, talvez. Apesar de desejarmos que toda noite seja sempre a última, ainda resta a esperança para mais um dia. Resta a vontade de dormir, perder a aurora, sempre tão melancólica, e acordar num dia novo, cheio de milagres, repleto de escolhas apetitosas... Na verdade, resta só a esperança! E é por isso que nós, os ratos, nos escondemos das primeiras claridades dos dias. Nos escondemos, dormimos e acordamos somente depois da primeira certeza de escuridão. Nos escondemos dos dias porque estamos de saco cheio de ouvir falar de esperanças. Queremos matar agora a nossa fome, e temos a urgente necessidade, todos os dias, de nos livrarmos da letárgica atmosfera que preenche quase todos os espaços. Por isso circulamos por entre o lixo, em locais podres e mal iluminados. Queremos escapar da mansidão do mundo e de todos os seus caminhos previsíveis, pois não somos ovelhas e não acreditamos nos pastores. Escavamos, por baixo, nossos próprios desejos e paramos pelos bares pra descansar e tomar alguns tragos. É dali que sai nossa música, nosso teatro, nossa literatura. Nossa arte e política. Nossas discussões, brigas e amizades. E nunca adiantou tentar explicar para o mundo o que é isso. Ovelhas e pastores nunca entenderão nada sobre ratos. Nunca entenderão meus olhos vermelhos do vento frio da noite, enquanto desço as ruas cambaleando. Dirão que sou mais uma alma perdida. Sempre se enganam. Pois nem sou alma e muito menos perdido. Conheço meus caminhos, apesar de não ter decidido ainda por onde vou. E, vantagem minha, conheço os seus caminhos também, oprimidas ovelhas. São a mesma coisa, a minha sarjeta e o teu “conforto”. A diferença é que vocês ficam aí e falam, sem saber exatamente o quê. Nós seguimos por aí e comemoramos todas as noites o fato de estarmos à parte do seu universo de servidão inconsciente. Menos que isso, comemoramos, lamentamos e brindamos à vida, simplesmente, enquanto estivermos vivos. Apenas seguimos andando pelas ruas podres às noites. Sem segredos, sem mistérios.

7 Comments:

Blogger Alessandro said...

Um dia será preciso considerar o processo pelo qual passa uma ovelha até se tornar um rato. Eu ou você. Ou os dois. Ou quem mais quiser.

Diabos... dá um sono depois do almoço...

Abração!

sexta-feira, julho 07, 2006 3:02:00 PM  
Anonymous sou eu seu avestruz said...

Sinceramente. Aqui quem fala é o cara que te chamou de trouxa num comentário qualquer... bem isso não vem ao caso.

Falemos de ovelhas e ratos. Falemos sobre o tema que move a ambos. O fato de serem andarilhos. Os primeiros guiados pelo nariz, pelo próprio gosto, pelo seu senso que é fundado no sensível. Os sengundos, guiados também pelo nariz, porém, com o senso focado num senso mais previsível, talvez racional. Senso que fundamenta os sentidos às experiências de outro. Um pastor? Talvez. Porém nada nega o fato de ambos serem andarilhos de quatro patas que andam à procura incessante de algo que lhes tragam um porque, uma definição daquilo que dê sentido às suas caminhadas. O sentido é a finalidade. O fim que pode ser agora aos 23 ou mais tarde aos 110. A verdade é que se não escolhemos nascer o que nos dá o direito de escolhermos morrer? Só então nos resta caminhar. Mas de que adianta caminhar se não sabemos e talvez nem queiramos saber para onde ir. Ratos e ovelhas caminham juntas. A diferença é quem guia quem. O Pastor ou a matilha? Ovelhas seguem todas um único pastor. Ratos seguem todos, a vontade do Todo. Porém ambos seguem cada qual seu único referencial. Porém a vontade do Pastor e do Todo não é suficiente para definir e assim preservar a identidade de cada Rato, de cada Ovelha. É preciso mais. E é isso que faz um Rato unir-se à sua matilha e uma ovelha se desgarrar de seu rebanho. A busca pela verdade. A busca pela definição de quem são os ratos e quem são as ovelhas. Ratos são ratos porque fazem coisas de ratos. Ovelhas são ovelhas porque fazem coisas de ovelhas. Quando ovelhas fizeram coisas de ratos e vice-versa passarinhos dirão: -É o inferno na terra!!! (ou Terra ). E nós seres humanos quando observamos pessoas como nós negando sua própria natureza dizemos: -Que loucura!!!
-Olha lá, mais um perdido na vida!!! Um frustrado!!! Porém meu caro, quem foi que disse que NÓS SOMOS AQUILO QUE FAZEMOS????? Há uma grande confusão nisso pois como temos problemas em definir quem somos, no lugar colocamos a idéia que temos do que somos. É por isso que você sabe o que é Deus, porém nunca saberá quem é Deus!!! Caro e pulguento Rato, ambos sabemos, porém não da mesma forma, que definição é tudo aquilo que indica a essência, o que nos leva a crer que, embora um macaco se pareça com um homem, isso não implica que nós viemos do macaco. Da mesma forma que você gosta de andar por aí com raposas, amigos da onça, lobos e cordeiros, isso não implica que você seja qualquer tipo destes aí. Porém é preciso que você saiba onde quer chegar para que em algum momento não troque gato por lebre e acabe comendo queijo com gosto de ratueira. Esse é o risco que ratos, ovelhas e pastores correm. Isso é o que todos querem evitar. Porém, meu semelhante, chegamos bem próximo de sabermos quem somos quando nos reconhecemos naquilo que fazemos. Entendeu? Você não é o caminho que você trilha. Mas está buscando ser alguém. É natural dos animais temerem o desconhecido. Porém é somente através do conhecimento que obtemos a capacidade de reconhecer algo. E existem muitas formas de se conhecer sobre as coisas. Um método eficaz é aprender com a experiência dos velhos. Porém elas nunca serão as nossas se não praticarmos. Há também a possibilidade de aprendermos com nossa propria experiênca. Porém isso leva tempo e é mais perigoso. Porém nada nos impede. Saiba que ovelhas e ratos são livres no grau em que conhecem sua liberdade. Da mesma forma são presos. Porém o que realmente nos liberta é o conhecimento que temos daquilo que nos prende. O motivo que nos prende . Saber isso nos faz correr o risco de querer a liberdade. Liberdade para errar, acertar e se foder. Não importa. Por mais que nos esforcemos para viver e sobreviver, a certeza é que da vida nunca sairemos vivos. Então contente-se com isso seu rato. O triste é sermos ratos, ovelhas, leões e viver agindo como vermes. Um verme. Mas você já sabe disso. Foi você que aprendeu sobre o vagalume que por não saber quem era viveu a vida sem acender, sem mostrar quem realmente era e acabou morrendo como uma MOSCA. Eu sei quem você é. E não é graças aos amigos, seus semelhantes que você é quem você é. Você é uma escolha sua. Não é o emprego que te faz assim. Não são seus textos. Não é o externo transitório e mutável que fez de você quem você é. Se quer continuar como rato foda-se. Uma coisa é certa: "Diga-me com quem andas e eu te direis aonde você vai parar". Você Rafael G. M. é único. O que você tem é o que vem fazendo por merecer. O que você tem é consequencia do que faz. O que você faz é conseqüência do que você é. Então vá trabalhar, ganhar dinheiro para que você possa andar mais tranqüilo como você é. Rafael. Rato. A semelhança está no Rá. Foneticamente eu diria RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ RÁ. Mas isso soará com um tom de gargalhada. E isso definitivamente não é uma piada e esta nem é minha intenção. E antes que pense que sou uma ovelha, vá tomá no cú e conte comigo. É fácil também reconhecer um problema quando vemos um. Mano por pior que o problema pareça, independente do que todos hão de pensar conte comigo. E , eu sei que você não é um viado pra ser caçado.
Enfim, antes que eu comece a parecer o que não sou... até.

terça-feira, julho 11, 2006 2:38:00 PM  
Anonymous Marco... said...

Mafra...

FODA o texto... me fez sentir saudades das noites "de rato" contigo...

Caraio... isso aki tah parecendo uma sucursal da universal...

"A diferença é que vocês ficam aí e falam, sem saber exatamente o quê. Nós seguimos por aí e comemoramos todas as noites o fato de estarmos à parte do seu universo de servidão inconsciente."

Pastores e ovelhas nunca entenderão nada mesmo sobre ratos...

Saudades de vc muleke...

terça-feira, julho 11, 2006 5:05:00 PM  
Blogger Alessandro said...

Mudanças? Você percebeu? Eu só um pouco. É que estou próximo demais do que escrevo. Depois você me conta o que viu.

Abração!

terça-feira, julho 11, 2006 6:23:00 PM  
Anonymous Thiago B. said...

Rafael,
Antes de tudo gostaria de dizer que adorei seu texto, mas quando o li senti algo tão profundo dentro de mim que não pude deixar de escrever uma outra concepção...Que a diferença entre o meu texto e o seu texto também seja uma linha tênue que de certa forma nos leve a mesma mensagem e caminho. abraços

Claro...Escuro ?... Não sei... Nos tempos atuais tudo é tão inconstante que não sei se essa linha tênue entre os dois extremos da dualidade pode não ser tangível...Dizemos que estamos saudáveis quando na verdade estamos doentes, e dizemos que estamos doentes quando na verdade esbanjamos saúde. Eu não quero matar a fome, quero comer...E a minha urgente necessidade se resume em acordar todo dia com a esperança de que me livrarei da péssima atmosfera que preenche quase todos os espaços deste planeta. Ainda não me convenci quanto ao fato de andar no escuro, impalpável, intangente. Mas também não quero escapar dele. Queria eu sim, poder acender uma luz ao lado da escuridão, e caminhar junto à ela, não por baixo, mas por cima! E com meu próprio desejo, deferir o ego. Que os bares, calçadas e elevadores sirvam como fonte de inspiração para todo e qualquer tipo de arte, seja a música, o teatro, a literatura, a conversa, o amor...ós precisamos tentar parar de tentar explicar para o mundo o que são as coisas e procurar tentar entender o que o próprio mundo nos diz. Somos sim farinha do mesmo saco, parte da mesma massa, unidade. Ovelhas e pastores nunca entenderão nada enquanto ovelhas forem ovelhas, pastores forem pastores, e ratos forem ratos.

terça-feira, julho 25, 2006 10:22:00 AM  
Blogger Rafael Mafra said...

É, Thiago, os dois textos têm a mesma essência. Gostei do seu também. Creio que seja a mesma procura, só que por caminhos diferentes.

Valeu a visita!

Abraços

terça-feira, julho 25, 2006 11:01:00 AM  
Anonymous Thiago B. said...

Pois é!
Na verdade talvez o segredo não esteja no destino final, mas nas curvas que nos levam até ele. :-)

Visitarei sempre agora seu blog porque os textos são muito bons mesmos, parabéns!

Forte abraço.

quinta-feira, julho 27, 2006 11:58:00 AM  

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