Fortunas

está tudo em pé
tudo caminhando
é hora de construir meu pequeno castelo
e economizar alguma grande fortuna
não há muito tempo e nem muitas coisas
para se perder
um e outro
passam ao meu lado
e tecem elogios aos meus pensamentos
quem diria?
que ironia improvisada
são pessoas e trabalham muito
e eu até que gosto do trabalho
mas não,
não respeito os trabalhadores
está na hora de montar
um imenso castelo de cartas da vida
em notas de vinte, de cinquenta e de cem
e daí em diante
serão só reclamações no meu jogo
passam ao meu lado
e lançam laboriosos elogios
respondo com lamúrias e palavrões
disfarçados de sorrisos
aproximem-se
isso, mais perto
e o tiro acerta o teu rosto
bem no centro
no nariz
tem sempre a hora da desconstrução
que o vento desfaz o castelo de cartas
levando as notas e a poeira
em direção ao contraste melancólico
das lâmpada dos postes contra o céu escuro
numa noite fria em preto e branco
mais perto, vem
tome, um gole
traga o fígado e o pulmão
sente-se, esqueça de tudo
e aproveite o que sobrou de sua garrafa
enquanto isso, bato estaca
bato cartão e bato a garganta seca
no balcão-labore
de purgantes dias ébrios
que nunca bastam para meus maus-humores
que descobri que sóbria é a noite
embebida e embevecida
por álcoois e ares
inerentes ao betume espesso
que pisamos nossos pés
sóbrios são os braços da escuridão
nos quais nos jogamos sem medos
e sem cabeças pra pensar
em ganhos ou danos
descobri que tudo é o inverso
e que ébrios são vocês
por isso não os respeito
passa do meu lado
chega mais
toma um gole dessa nossa lúcida bebida
tira esse gosto de traição
da ressaca dos dias sem gosto
que você vive por aí
aproxime-se
destrua o castelo de notas flutuantes
da monótona música cotidiana
lembra do nariz?
quebra a cara na parede do castelo
se quiser